terça-feira, 29 de março de 2011

Mandatos de 5 anos

Gostar do que se faz? Fazer o que se gosta? E quando não se sabe o que se gosta? Ou se gosta e não se sabe? O mundo é imenso e a alma é vasta ... A vida poderia ser dividida em pequenas vidas Com início, meio e fim Em cada pequena vida, viveria-se uma história diferente Com início, meio e fim Tem tanto para se ver, Tanto para aprender, Tanto para se fazer, Tanta gente para conhecer! Como fazer tanto em uma vida só? A vida poderia ser dividida por mandatos Mandatos de 5 anos Com equipe de transição, Com planejamento estratégico E toda a parafernália administrativa de um governo Cada quinquênio seria vivido intensamente "50 anos em 5" Se assim fosse, eu já teria 350 anos de experiência!

domingo, 20 de março de 2011

Somatizando

A dor da alma passa para o corpo
Devagar, num passo lento
A dor do corpo se instala
Analgésicos
Exames
Não vão resolver
A dor que vem da alma
Dói na carne
Dói nos ossos
Mata o sono
Asfixia cada célula
Derruba os fios de cabelo
Anula o apetite
Apaga o desejo
Extermina a vontade
Falta muito para terminar?
Que chegue a noite eterna
Que cesse o alvorecer

Há braços?

Ainda há braços
para o abraço?

Ainda há braços
para o conforto?

Ainda há braços
para o carinho?

Ainda há braços
para o afago?

Ainda há braços
para o amor?

Aqui ainda há braços
para abraçar, confortar,
acariciar e amar

Dois braços que abraçam,
confortam,
acariciam,
amam

Dois braços que anseiam
pelo compartilhar
do abraço de outro
par de braços
que também
o abrace,
o conforte,
o acaricie,
e o ame.

Incluído no vazio

No meio da multidão você é alguma coisa e está em algum lugar. Na verdade, você é mais um personagem, seu rosto mostra um sorriso, suas mãos se ocupam com um copo ou com uma garrafa, seu corpo se convulsiona em uma pista de dança esfumaçada onde pessoas se veem como vultos iluminados que aparecem e desaparem no ritmo das luzes, mas não se reconhecem, se tocam, se pegam, se usam, se deixam usar.
No meio da multidão você é parte do nada. O sorriso nasce do nada, a conversa começa e não termina, o estar entre as gentes é mais importante do que estar com as gentes.
No meio da multidão você entra em contato com sua solidão e o ser o e estar se incluem no vazio.
No meio da multidão você entende que sua solidão é sua companhia, é sua casa, é o seu lugar.
No meio da multidão você percebe a sua insignificância.
No meio da multidão você compreende que a sua solidão deve ser compartilhada, cuidada, orientada e tratada por algo maior do que você e do que os seus iguais, você sente sede e fome do que denomina-se Deus.
No meio da multidão você se encontra no "interior do seu interior", vazio e sem graça, sente a necessidade da Graça que é de graça e se assim quiser pode libertar-se do seu nada e compartilhar a solidão acompanhada com outros solitários que sorriem para o nada.

Soundtrack: Bigger than us: White lies
http://www.youtube.com/watch?v=Ts4P2vckNNE

sexta-feira, 18 de março de 2011

Fermata

Samba de roda, bombom Sonho de Valsa, paçoquinha Amor, camisa do Corintians, depoimento gravado, painel de fotos, discursos das filhas, rezas dos que acreditam em Deus, só para eles, pois você se dizia ateu mas talvez fosse um agnóstico.
Um ser pulsante, pensante, política e socialmente engajado.
Samba da Portela de saideira, hora de fechar o caixote de madeira, seu neto diz "Hora de carregar o véio" e com um ar meio inconsciente e ébrio de quem parece que não sabe ao certo o que acontece, parte para ajudar outros 5 que te carregavam. Hora de arrumar a bagunça, tirar as fotos, juntar a comida e a bebida, levar as flores...
Você já esteve nas despedidas de muitas pessoas nesse mesmo lugar. Mas dessa vez as letras do painel formaram o teu nome. Lá vamos nós, passar por corredores onde fotos nos olham e datas marcam o começo e o fim de tantas histórias. Nada de luxo, tudo muito simples. Dando a cada um conforme a sua necessidade e a tua agora é a de um buraco e de algumas pás de terra para te cobrir. E lá vai o que você precisa agora, à terra, e nós, à vida.
Silêncio. Fermata.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Hilário


Teu porte imponente, alto e magro, te fizeram ser notado sempre.Vendo as fotos antigas, é impossível não perceber a tua similaridade com o bisa: José Molina Rubio, só faltou o bigode.
Hilário é o teu nome, mas você não foi tão hilariante quanto o nome anunciava, pelo contrário, foi um ser pensante, serio e inquieto de ideias. Teu jeito calmo de falar, de articular, de conversar, tuas ideias lúcidas, tua lógica, tua melancolia ... te fizeram um dos parentes mais queridos. Impossível ir para praia sem passar na tua casa, ficar horas na varanda, jogando conversa fora, falando sobre o nada, sobre o tudo, sobre a vida dos vivos e dos mortos, dos conhecidos e dos desconhecidos, admirar o jardim que você plantou e cuidou sempre com tanto carinho, brincar com os cachorros que sempre te foram companheiros e que pareciam refletir tua personalidade. Flores multicoloridas, alho poró, berinjela, abobrinha, cebolinha ... tudo tão lindo e tão bem cuidado! No início desse ano, colhemos juntos um pouco de alhó poró e mal sabia eu que aquela seria nossa despedida das ciências agrícolas de quintal.
Teu gosto pela leitura e pelas palavras cruzadas me contagiaram. O "Ramalhete de trovas", aquele livro de versos que você me deu quando eu ainda nem sabia ler direito, como eu gostei daquilo! Repeti a leitura tantas e tantas vezes que perdi a conta, só sei que o tempo passou, as páginas estão amarelas e têm cheiro de passado.
Hoje parece ser um dos teus últimos dias depois de quase 80 anos por aqui. Há pouco te visitamos, antes dessa cirurgia cardíaca que tinha a intenção de te recauchutar. Éramos 12 pessoas num quarto onde só 2 visitas seriam oficialmente permitidas. Rimos, cantamos, contamos histórias mas você estava preocupado. Sabia, sentia que aquela poderia ser nossa despedida e queria dizer isso. Nós tambem sabíamos e sentíamos mas preferimos gastar esse tempo rindo e te fazendo rir.
A situação é delicada, medicamentos e equipamentos te mantêm vivo. Tua magreza aumentou, tuas rugas e manchas senis se acentuaram, teus cabelos brancos tão abundantes, tão lindos, são mais uma marca do tempo que passou e que agora cobra o preço. Teu sofrimento físico nos faz querer que você pare de lutar para que a tua dor pare e que você descanse.
As bebedeiras, as cantorias, as pescarias que você compartilhou com tanta gente... A memória, a história, a saudade, aquele sino que tange na catedral do peito, como dizia uma das trovas do livro que você me deu, serão nossas companheiras mas jamais te substituirão.
"Adiós muchachos compañeros de mi vida ..." acho que você cantaria isso e falaria alguma coisa com sua voz de tenor, se esses tubos não estivessem te fechando a garganta... Depois, você faria um discurso, levantaria da tua cadeira, abraçaria cada um, caminharia lentamente até o portão marrom de madeira que tem por cima um arco de flores lilases e em companhia da Vitória, a cachorra pretinha que tanto te estima, abriria o trinco, iria para a calçada, fecharia o portão, faria um breve aceno e sairia para caminhar. Se você pudesse, acredito que talvez fizesse assim.

Amigos

Amigos mais chegados que um irmão. Na infância, todos nossos amigos parecem ser assim e esse sentimento permanece por boa parte da adolescência.
Depois, vamos aprendendo que nem todas as pessoas são dignas de nossa confiança e que encontrar um amigo é como encontrar um tesouro.
Tive a sorte de encontrar alguns desses tesouros. Alguns já sairam de minha história e outros permanecem bravamente, desafiando tempo e espaço. Quando nos reencontramos, retomamos de onde paramos e assim seguimos até a próxima despedida e o próximo reencontro.
Novos se achegam e ficam por um tempo enquanto alguns velhos se afastam e depois desaparecem como uma fumaça. Queria que todos ficassem, mas seria egoísmo querer que fosse assim. Cada ser é livre para seguir seu caminho e quem é mais chegado que um irmão ama a ponto de entender que em alguns casos os laços simplesmente se diluem e que a lembrança do que se viveu será a marca de que cada momento valeu a pena enquanto pode ser eterno.